top of page

Crianças não são malas: guarda, vínculos e o risco da fragmentação emocional

Imagine sair de um dia exaustivo de trabalho, atravessar os portões da empresa e não saber quem vem te buscar. Pode ser que hoje você vá para uma casa, amanhã para outra. Talvez haja objetos queridos em uma delas, talvez não. Os cheiros mudam. Os sons, as rotinas, os afetos. A única certeza é a incerteza. Agora imagine viver isso todos os dias — e ser uma criança.

Esse pequeno exercício é um convite ao deslocamento: vestir a pele da criança e perceber o quanto certos arranjos familiares, mesmo bem-intencionados, podem gerar instabilidade emocional e desorganização psíquica.

Ilustração simbólica de uma criança pequena parada no centro de um caminho, segurando um brinquedo de pelúcia. Atrás dela, há duas grandes malas posicionadas em direções opostas, simbolizando a guarda compartilhada ou a separação entre ambientes. A paisagem é suave e poética, com tons delicados, transmitindo sensibilidade e reflexão sobre a infância. A frase 'Uma criança não é uma mala' aparece no céu, destacando a mensagem principal da imagem.

Quando termina o casal, mas não termina o vínculo parental

A separação conjugal é um acontecimento adulto. Mas seus desdobramentos afetam profundamente a infância. A forma como os adultos reorganizam sua parentalidade após a separação é determinante para a qualidade da experiência afetiva e simbólica da criança.

Segundo a psicanalista Françoise Dolto, a criança não precisa de pais juntos — precisa de pais que se comuniquem com respeito, que sustentem um lugar de segurança simbólica e afetiva, mesmo separados. O problema começa quando, ao fim do casal, também se rompe a possibilidade de diálogo parental, e a criança é lançada ao meio de disputas, revezamentos e fragmentações emocionais.

Modalidades de guarda: o que está previsto e o que se pratica

No Brasil, há basicamente duas modalidades de guarda previstas legalmente:

  • Guarda unilateral: quando apenas um dos genitores detém a responsabilidade principal pela criação da criança, cabendo ao outro o direito de convivência e dever de apoio financeiro.

  • Guarda compartilhada: ambos os genitores dividem decisões e responsabilidades, mesmo que a criança resida predominantemente com um deles.

Há ainda uma prática chamada guarda alternada, não prevista explicitamente na legislação, mas comum na realidade de muitos casais separados. Nela, a criança se divide igualmente entre dois domicílios — geralmente por semanas alternadas. Embora essa organização pareça equilibrada no papel, na prática, pode gerar desorganização emocional e dificuldade de enraizamento subjetivo, especialmente em crianças pequenas.

Vínculos e continuidade: o que precisa permanecer?

Para o psicoterapeuta dinamarquês Jesper Juul, a base da saúde emocional de uma criança está em vínculos significativos, presença verdadeira e escuta respeitosa. Não se trata apenas de onde a criança dorme — mas de quem sustenta emocionalmente sua existência.

A estabilidade não está em cronogramas, mas na previsibilidade emocional: na rotina de afeto, no cheiro da comida, no lugar onde a criança sabe que será vista e ouvida. Alternar casas, ambientes, estilos de educação e modos de cuidado pode parecer justo entre os adultos, mas muitas vezes é um fardo silencioso para quem ainda está construindo sua identidade.

A idade da criança importa — e muito

Cada faixa etária exige um cuidado distinto com a organização da guarda e da convivência:

  • Primeira infância (0-3 anos): laços afetivos estáveis, rotinas repetidas e objetos transicionais são cruciais. A alternância constante de casas pode gerar insegurança, regressões e até dificuldades no sono e na alimentação.

  • Idade pré-escolar (3-6 anos): período intenso de elaboração simbólica. É fundamental que o ambiente mantenha certa continuidade narrativa e emocional. A criança começa a entender a separação, mas precisa de histórias coerentes, não de mudanças abruptas.

  • Crianças em idade escolar (7-12 anos): são mais adaptáveis, mas ainda dependem fortemente de um lugar de referência. Dividir espaços pode funcionar se houver muito diálogo entre os adultos e respeito à singularidade da criança.

  • Adolescentes: tendem a expressar preferências e demandas com mais clareza. Ainda assim, o equilíbrio emocional depende da qualidade dos vínculos, não da simetria dos tempos de convivência.

A criança não é uma mala: ela precisa de chão simbólico

A guarda alternada, quando praticada de forma mecânica, transforma a criança em um objeto em trânsito, uma mala que muda de casa toda semana. Mas a criança não é uma posse a ser dividida — é um sujeito em construção, que precisa de enraizamento emocional, previsibilidade afetiva e vínculos consistentes.

Laura Gutman, ao abordar o discurso materno e sua influência psíquica, aponta que a escuta dos adultos molda a narrativa emocional da infância. Quando essa escuta se perde em agendas e trocas logísticas, a criança se vê sozinha no esforço de organizar internamente um mundo externo em pedaços.

Não basta dividir tempo — é preciso sustentar presença

A psicoterapeuta Isabelle Filliozat alerta que a verdadeira autoridade parental não está no controle ou no tempo medido, mas na capacidade de acolher o mundo emocional da criança, oferecer limites coerentes e construir uma base segura onde ela possa crescer com confiança e autonomia.

A ausência de continuidade emocional gera o que a autora chama de “zonas de insegurança psíquica”: espaços internos confusos, onde a criança não sabe em quem confiar ou o que esperar. Isso pode se manifestar em comportamentos agressivos, baixa autoestima, regressões ou mesmo no corpo, como sintomas psicossomáticos.

Para pensar junto: o que a criança está tentando nos dizer?

É preciso escutar além da logística. Muitas vezes, a criança manifesta seu mal-estar por meio do corpo, da recusa escolar, da irritabilidade, do silêncio. São pequenas mensagens de um mundo interno desorganizado.

Separar o casal é legítimo. Separar-se da função parental, não.

Elisabeth Badinter nos lembra que há uma tensão constante entre o ideal de maternidade/paternidade e o que é possível sustentar subjetivamente. Ninguém acerta sempre. Mas o mínimo ético é escutar o que a criança precisa — e não apenas o que os adultos desejam.

Referências:

  • Dolto, Françoise. Quando os pais se separam. WMF Martins Fontes, 2013.

  • Juul, Jesper. O que há de errado com as crianças de hoje?. Papirus, 2011.

  • Gutman, Laura. O poder do discurso materno. WMF Martins Fontes, 2010.

  • Filliozat, Isabelle. Inteligência emocional para crianças e pais. Vozes, 2019.

  • Badinter, Elisabeth. O Conflito: A mulher e a mãe. Record, 2011.

  • Fize, Michel. L'autorité expliquée aux parents. Larousse, 2008.

  • Lei nº 13.058/2014 – Guarda Compartilhada.


Comentários


+55 51 99775 7958

Porto Alegre - RS - Brasil

  • Facebook
  • Instagram
  • Link

 

© 2025 by Letícia Werle – Psicanalista Clínica. Powered and secured by Wix 

 

bottom of page